Um Vizinho Sábio
Felicidade era tudo que ele sentia, e quando os dias terminavam, mais uma de suas realizações era concretizada... Tudo estava andando com ele queria, sucesso em seu pequeno trabalho que lhe rendia bons frutos...
Bons frutos que deveriam ter sido reservados, planejado de uma maneira, que no futuro pudesse ter uma garantia de todo o seu esforço.
Mas isto ele não soube fazer... Não pensou corretamente, e deixou o tempo passar, usufruindo de tudo, quando um certo dia, tudo aquilo que possuía veio a desmoronar. Faliu totalmente. Era já idoso para recomeçar uma nova vida, mas ele não desanimaria fácil!
Não sabia como agir ou como resolver seus problemas. Mas, Jeremias era um homem inteligente, não tinha medo do que deveria enfrentar e sabia que conseguiria um dia superar!
E o tempo que passava fazia com que perdesse algo de precioso, um bem maior, ao ponto de sentir fome e não poder comprar o que comer.
Seu vizinho, um homem bem mais jovem, sempre lhe desejava bom dia e vendo aquilo que acontecia, queria e sentia vontade de ajudar, mas ele era muito orgulhoso e de alguma forma ele encontrava um modo para dizer que não precisava, que estava tudo bem, que daria um jeito, que havia já uma nova ideia e que se caso precisasse ele não hesitaria em pedir, assim... terminava sempre com a mesma frase:
- Esteja tranquilo... para tudo tem uma solução, não se apavore não!
O importante é não roubar e não matar como meu pai sempre me ensinou. Outra solução encontrarei!
E o tempo foi passando e aquele homem foi se apavorando...
Não tinha nada mais na dispensa e a geladeira até foi usada para pagar suas dividas que não eram poucas. Também seria inútil mantê-la, pois, nem energia na casa havia mais. A casa foi o único bem que não perdeu, por estar no nome de seu filho que naquele momento vivia muito longe dali e nem se preocupava com esta casa. Ele dizia sempre ao seu pai, de fazer o que achasse que fosse necessário com a casa. Dizia sempre que se preocupava na verdade era com seu pai, nada mais!
Mas não poderia fazer nada, vivia longe de seu pai!
E, o amigo ali vizinho estando perto, por meses passava para um prosa e o homem sorridente disfarçava suas preocupações para não perturbá-lo.
Se tornaram tão amigos que ao passar do tempo, passaram a falar um com outro de uma forma mais carinhosa, dizendo de serem compadres!
Quando o amigo levava um prato de comida, ele dizia que já havia comido, agradecia...
O amigo vizinho perguntava todo dia que o olhava:
-Você comeu hoje, compadre?
- Como não? Comida farta hoje!
- O que comeu?
Hoje, passeando no parque, colhi alguns frutos que havia em uma árvore e comi tudo!
- Fico feliz que encontrou comida, você é muito teimoso, queria mesmo poder te ajudar!
E ele respondia:
- Esteja tranquilo...para tudo tem uma solução, não se apavore não!
O importante é não roubar e não matar como meu pai sempre me ensinou. Outra solução encontrarei!
A cada manhã, a cada dia surgido, o amigo perguntava o mesmo...
Mas aquele homem velho ao olhar seu amigo compadre tão jovem, o via uma pessoa muito ocupada para perder tempo com ele, mas não era verdade!
O vizinho se preocupava de verdade e ao mesmo tempo, ele o admirava por saber inventar até um modo de se alimentar.
Ele gostava de suas ideias e suas invenções... precisava saber qual foi o menu do dia.
- Bom dia, compadre! O que comeu?
- Hoje, colhi lá no mesmo parque folha de algumas árvores frutíferas e fiz uma salada muito saborosa!
- Mas como saborosa se nem sal em sua casa tem?
Todos os dias, eu pego um balde da água do mar para temperar os alimentos.
- E fica bom?
- Não existe melhor! E ainda mais com os ovos mexidos que fiz... ovos que peguei de um ninho em uma das árvores que ali existia!
- Amigo, eu quero poder te ajudar!
- Esteja tranquilo... para tudo tem uma solução, não se apavore não!
O importante é não roubar e não matar como meu pai sempre me ensinou. Outra solução encontrarei!
Amanheceu... E aquele seu amigo mais jovem que se chamava Rafael, não via a hora de vê-lo para fazer a sua repetida pergunta.
Era muito forte essa vontade de saber, mais do que poderia imaginar!
- Meu compadre, o que comeu hoje?
Perguntou Rafael sempre curioso, pois, gostava de seu modo de ser...
- Entre e coma também, porque hoje tem fartura! Tem até sobremesa!
- O que tem hoje, então?
- Pela manhã, eu lá no parque avistei uma colmeia e colhi com toda a coragem tanto mel!
- Não brinca! Fala sério?
- Não estou brincando não!
E o melhor foi que quando eu estava tirando o mel lá do alto do árvore, o galho quebrou e então eu caí em cima de um gato que passava ali naquele momento.
Não sabendo o que fazer, trouxe o gato pra casa que estava morto e fiz uma bela fritada na panela!
O amigo vizinho quase deu um troço!
Queria sair correndo dali, mas sem graça de fazer desfeita não teve coragem!
E assim falou:
- Mas, com que óleo compadre?
- Usei as sementinhas do girassol... produz um ótimo óleo!
E assim, este homem foi vivendo, não roubava, não matava como ensinou seu pai!
Não usava violência a nenhum ser humano para poder sobreviver, nada!
Apenas encontrava soluções para mais um de seus dias!
Ao deitar chorava, pois havia a sensação de viver em uma selva, onde precisava sobreviver e se sentia mais forte que muitos outros animais se tornando um predador...
Em seus pensamentos, Jeremias imaginava que era um assassino e também um ladrão, ele não roubava dos homens, mas com os animais era o que estava fazendo. Roubando e matando.
Se sentia um que não dava o devido valor à natureza e para ele que busca ser correto, lhe fazia angustiado, mas precisava sobreviver sem prejudicar outros.
E assim, muitas vezes para não sofrer, imaginava de viver em uma ilha, onde deveria sobreviver até o dia que algo desse certo. Deveria usufruir do que Deus construiu de belo... a natureza!
Um certo dia pela manhã, ele saiu para um passeio, pensando em convidar seu amigo Rafael para uma visita em sua casa... havia limpado a casa e tinha uma novidade no menu para aquele dia.
Planejou um churrasco e queria convidar seu compadre.
Chegando lá para convidá-lo, o amigo estava ao leito enfermo e não poderia ir, mas mesmo assim fez a pergunta:
- O que vai comer hoje, compadre?
- Vim aqui para te falar, porque não via você passar para perguntar!
Fiquei então muito preocupado...
Te esperei por tanto tempo para te convidar para o meu churrasco, mas agora farei uma canja com a carne e trarei para você se sentir mais forte!
- Mas que carne é esta? Você ganhou de alguém?
- Não!! Hoje pela manhã, em minha janela, havia pombos e ao abri-la, três pombos se assustaram e entraram dentro da casa.
Voavam apavorados e não paravam de bater com a cabeça no teto até morrerem. Por isso que hoje tem carne!
O amigo Rafael pronunciou sorrindo:
- Parece que Deus te protege, compadre!
Você realmente é um homem muito sábio e guerreiro e sou feliz de poder estar ao seu lado, vendo sua sobrevivência calma e serena em vez de se desesperar como muitos ou mesmo como eu!
- E então, posso trazer a canja?
- Faço questão de prová-la, mas antes terá de me prometer que de hoje em diante estará aqui em minha casa todos os dias, na hora do almoço a cozinhar para nós!
Seria uma ajuda de ambos, seria uma troca de favores, pois, eu não gosto de cozinhar e enquanto você preparava seus pratos eu me alimentava mal e agora estou aqui neste leito e o medico disse que faltava uma boa alimentação!
- Mas, eu não quero atrapalhar a sua vida, compadre, de maneira alguma. Não seria justo invadir sua privacidade constantemente.
- Compadre... mas você é um amigo! Um grande amigo que sinto falta, se não vejo por um dia. Jamais seria um invasor e se tiver algo errado, eu não hesitaria em dizer a você.
E assim terminou com a frase que aprendeu com ele!
- Esteja tranquilo... para tudo tem uma solução, não se apavore não!
O importante é não roubar e não matar como nossos pais sempre nos ensinaram.
Outra solução encontraremos!
Ele aceitou porque percebeu que seu amigo Rafael precisava dele e ele também precisava!
E a partir deste momento pareciam Pai e filho!
Um grande amor nasceu entre eles, se protegiam e aquele jovem aprendeu tanto com Jeremias que a riqueza surgiu naquela casa novamente... A maior riqueza... o amor e amizade entre dois estranhos e solitários.
Venderam a casa do lado, pagou suas dividas e seus ensinamentos, doou a esse jovem que a cada dia crescia profissionalmente, mas com uma diferença: aprendeu que deveria fazer reservas para um futuro distante. Em meio a tudo isto, de vez em quando Jeremias e Rafael cozinhavam ainda com a água salgada do mar, pois achavam que tudo ficava mais saboroso!
Autora: Aymée Campos Lucas